Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Qual a base de apoio da presidenta Dilma?

Nesses pouco mais de sete meses de governo da presidenta Dilma Rousseff (PT) tem ficado mais evidente o constante afastamento do governo da ampla base social que foi fundamental para garantir sua eleição no ano passado.
Não falamos em mudanças na política econômica que pudessem contribuir para pôr a perder os avanços conquistados em oito anos de governo Lula.  É claro que a economia ainda continua bem, em que pese as concessões, cada vez mais frequentes, a princípios neoliberais e financistas.  Ainda não é de economia que falamos.
Falamos daquelas posturas que trincaram a base social de um governo popular.  Exemplo disso são os constantes recuos no que se refere às políticas públicas de garantia de direitos e proteção da vida da comunidade LGBT.  O material a ser utilizado em escolas como ferramenta de educação anti-homofobia foi rifado em prol da defesa de Antônio Palocci pela bancada evangélica.  De nada valeram os inúmeros casos de violência contra gays: falou mais alto a voz do conservadorismo evangélico e católico.
No âmbito da comunicação dois processos são marcantes: as mudanças que desconfiguraram o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) conforme construído no governo Lula; e o engavetamento do projeto de lei de regulação da comunicação midiática no país, concebido sob o ex-ministro Franklin Martins.  Agora com o escândalo envolvendo o magnata Rudolph Murdoch e o News Corporation na Inglaterra talvez o ministro Paulo Bernardo tenha coragem de desengavetar o projeto.
Tudo isso sem enfatizar as questões relativas à gestão de Ana de Hollanda no ministério da Cultura, que provocaram a primeira crise e o afastamento de muitos movimentos sociais da cultura e do software livre que apoiaram a eleição de Dilma Rousseff.
Portanto, é nesse contexto que eu consigo ler uma notícia destacada pela Folha de S. Paulo de hoje:

Lula teme que Dilma se isole da base governista

Ex-presidente diz a aliados que pode haver retaliação contra demissões

Integrantes da corrente majoritária do PT dizem que rito sumário coloca em risco as alianças que sustentam o governo 

CATIA SEABRA
NATUZA NERY
DE BRASÍLIA 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou a interlocutores sua preocupação com o estilo de Dilma Rousseff na condução da crise dos Transportes.
Nas conversas, Lula disse ter medo de que o rito sumário nas demissões e o temperamento de Dilma imponham riscos à governabilidade, levando-a ao isolamento.
O ex-presidente tem avaliado que, graças à aliança de 15 partidos, Dilma ainda possui capital político para tomar medidas drásticas, como a exoneração em massa de dirigentes nos Transportes.
Sua apreensão está na hipótese de desperdiçar esse ativo agora: ele teme que o troco aconteça num momento de fragilidade do governo.
Para descartar mal-estar com a ideia de que Dilma esteja tendo problemas com seu legado, Lula faz questão de repetir que o novo ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, comandava a pasta no fim de sua gestão.
Petistas afirmam que Lula apoia o rigor de Dilma, mas discorda dos métodos, sobretudo do tratamento dado ao PR. Após as denúncias, a sigla foi excluída do processo de sucessão na pasta que comanda há quase nove anos.
"Ela criou um rito [de demissão]. Em caso de suspeita, vai ter que valer para todos, até mesmo para o PT", afirma o líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG).
A inquietação de Lula se estende ao PT: "Aplaudimos o rigor dela", disse o líder do partido na Câmara, Paulo Teixeira (SP). "A administração desse processo tem que ser feita, na minha opinião, com diálogo com o PR, tendo em vista a necessidade da governabilidade e a relação com os partidos", disse.
Integrantes da corrente majoritária do partido (Construindo um Novo Brasil, de Lula) reclamam que a fórmula de Dilma contraria o princípio da ala de costurar um amplo arco de alianças. A crítica é feita veladamente por várias tendências.
A mensagem é de alerta: Dilma diz que privilegiará técnicos no governo, então afasta-se da classe política.

PERSONALIDADE
Na opinião de petistas, a personalidade de Dilma contribuiu para esse distanciamento. Dizem que ela se aborrecia tanto quando ventilavam pela mídia nomes cotados para o ministério que sacramentou o convite a Paulo Passos num rompante.
Colaboradores constantemente se queixam dos arroubos de Dilma a ponto de temê-la. No PT, diz-se que Dilma é pouco aberta a críticas. Também confia em poucos.
Segundo a Folha apurou, Dilma ouve poucos aliados antes de tomar decisões.
O grupo de ministros do Planalto -Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil)- adotou um procedimento atípico até aqui: ensaiar um discurso comum para tentar convencer.

Acho que antes de se preocuparem com a base partidária governista, a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula deveriam se preocupar com a gradativa perda da base de apoio social da presidenta.  Na crise de 2005, na eleição de 2006 e na eleição de 2010 a base social do governo foi mais fundamental que a base partidária.  Na hora da fragilidade, Dilma não contará com o PR.  E, pelo visto, nem com os movimentos sociais.

Comentários

Postagens mais visitadas