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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Murdoch lá, alguns Murdóquis aqui – a escola brasileira de jornalismo patife


Texto publicado pelo Jornalismo B:
Repercutiu por aqui o fechamento, na última semana, do jornal News of the World, um dos muitos veículos do maior conglomerado de comunicação do mundo, de propriedade de Rupert Murdoch. O magnata australiano é dono do Wall Street Journal, do The New York Post, da Fox e de diversos outros canais de TV por assinatura, além de dezenas de jornais espalhados pelo mundo.
A News Corporation, conglomerado que controla todos esses veículos, é o equivalente mundial da Rede Globo – no caso do Brasil – ou do Grupo RBS – no caso do Rio Grande do Sul – com a diferença de que está mais longe do que estes de constituir monopólio ou oligopólio em seu território de atuação. A forma de atuação empresarial e jornalística também não é essencialmente diferente.
O News of the Word teve que fechar as portas após a descoberta de que o jornal usava grampos ilegais em telefones de políticos e celebridades para obter seus furos jornalísticos. A partir daí, como escreveu Vladimir Pinheiro Safatle em artigo republicado pelo Diário Gauche, era aplicada a “seletividade do escândalo”, ou seja, “cabe ao jornal decidir quem vai ser exposto e quem será conservado, quem vai para a primeira página e quem vai para a nota do canto”.
Como bem lembrou o Diário Gauche, “no RS a escola Murdoch de jornalismo patife tem seguidores. Vocês não lembram que no governo Yeda (2007-2010) havia profissionais de imprensa que tinham acesso privilegiado ao sistema Guardião administrado pela Secretaria da Segurança para escutas autorizadas pela Justiça?”. Mas essa não é a única forma de atuação que liga setores do jornalismo brasileiro à “escola Murdoch de jornalismo patife”. Na verdade, essa é apenas uma ponta mais visível de uma prática que pouco tem a ver com jornalismo e muito tem a ver com os mais sujos jogos empresariais.
O ideário altamente conservador pregado em sussurros diários pelos conglomerados de comunicação brasileiros e seu trabalho conjunto com as elites econômicas e políticas do país – e de fora dele, como mostraram, por exemplo, recentes documentos divulgados pelo Wikileaks – são o pano de fundo de uma série de desmandos de diversidade muito mais ampla do que a diversidade de conteúdo desses veículos. Esse pano de fundo, obviamente, repercute nas ações jornalísticas.
A reprodução do discurso das elites mais conservadoras do país, o suporte das e às grandes empreiteiras, ao latifúndio, aos fabricantes de automóveis, celulose e cigarros, a publicação cada vez mais constante de releases policiais, a omissão constante da realidade, ao abandono do jornalismo das ruas, as freqüentes tentativas de impulso à privatização de todo o Estado brasileiro – uma especificidade que vem se consolidando é a ideia de privatização do sistema prisional. Todas essas são práticas empresariais dos grandes grupos de comunicação que entram em choque com o interesse jornalístico – e mais, com o interesse público. É a escola Murdoqui.
Na Inglaterra, o órgão responsável pela regulação das comunicações já caiu em cima dos interesses de Murdoch no país. Aqui no Brasil seguimos carecendo de órgãos assim, e mesmo da regulamentação dos artigos constitucionais que versam sobre mídia. A libertinagem de empresa segue atropelando a verdadeira liberdade de imprensa, através das formas mais sujas de constituição legalizada de oligopólio e de ataque à liberdade de expressão.

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