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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Fascismo: a serpente rompe a casca do ovo e põe a cabeça para fora

A Europa não prestou mesmo atenção a  uma de suas melhores cabeças do século XX. Adorno dizia que Hitler determinou um novo imperativo categórico: “pensar e agir para que Auschwitz nunca mais acontecesse”.
Um micro Auschwitz  acaba de acontecer na Noruega. Aparentemente o autor agiu sozinho, mas  parece esperto  o suficiente para saber que seu gesto pode impulsionar e animar seus iguais, articulados e organizados por toda a  Europa. Espero ser um mau profeta ao prever que virá mais.
Pensar e agir para que Auschwitz nunca mais acontecesse parece ter sido tudo o que a Europa não fez após a guerra. Xenofobia,  preconceito e discriminação grassam lá por toda parte. 
Governos adotam posturas rígidas contra imigrantes e emitem, com isto, sinais alentadores para o pequeno Hitler meio adormecido que repousa na consciência de muitos europeus.
Este pequeno Hitler também anda por aqui, e foi meio que sacudido na última campanha eleitoral por irresponsáveis que não tiveram escrúpulos de vender a alma para o diabo para ganhar a eleição, apelando grosseiramente para a intolerância e o preconceito. 
Perderam a alma e não ganharam a eleição. 
Este pequeno arranhão na casca do ovo foi  suficiente para gerar atos de vandalismo contra minorias e  ataques a gays e  nordestinos, nas ruas e nas redes sociais. Ou será apenas impressão que estes incidentes aumentaram após as eleições do ano passado?
Enfim, o que está parecendo é que a serpente rompeu a casca e pôs a cabeça para fora.
A frase de Adorno está em modo negativo. Não diz o que deve ser feito, diz o que devemos evitar. Não é difícil formulá-la em  modo positivo. Fatos semelhantes a Auschwitz, em qualquer dimensão, nunca mais aconteceriam se no planos político, social, econômico, cultural e educacional a Europa se dedicasse, após a hecatombe da II Guerra, a shoah e a morte de milhões de inocentes,  a construir na experiência o que o  seu  filósofo maior ensinou: a construção do conceito universal de homem.   
“Ao entrar o médico na alcova, como Kant não via já quase nada, eu lhe disse que era o médico que havia chegado. Kant se levantou, estendeu a mão, e disse algo sobre ‘postos’, pronunciando esta palavra repetidas vezes em tom obsessivo. O médico, crendo que era uma pura fantasia ou delírio do enfermo, o aquietou dizendo que no posto estava tudo bem. Kant então diz: ‘muitos postos, postos de doença’, e acrescentou em seguida: ‘muita bondade’ e ‘gratidão’ (...) Eu me dei conta do que ele queria dizer. Queria dizer que seu médico lhe dava uma prova de sua bondade ao visitar-lhe, apesar dos muitos e muitos postos de trabalho que ocupava. Disse isto ao médico. ‘Perfeitamente’, comentou Kant, que seguia de pé, com muita dificuldade. O médico pediu que sentasse. O enfermo não se decidia. Eu conhecia demasiado bem seu modo de pensar para que pudesse abrigar a menor dúvida acerca da verdadeira causa de sua vacilação. Falei com o médico e lhe disse que Kant, cuja finura e correção de modos não o abandonavam nem em seus últimos momentos, somente se sentaria quando ele, o visitante,  sentasse também. O médico, que parecia pôr em dúvida a razão de minhas palavras, convenceu-se dela, e quase lhe saíram lágrimas quando ouviu o enfermo dizer, apelando a suas últimas forças, com a energia que pode:  ‘o sentimento de humanidade não me abandonou ainda’. (Relato de Wasianski, criado de Kant, reproduzido por Ernst Cassirer em “Kant, Vida e Doutrina”, Fondo de Cultura Económica. Traduzi do espanhol o trecho)

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