Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Apesar de você foi lançada por Chico Buarque em 1970 em compacto simples, mas só veio a ser liberada para registro em LP no fim da década, gravada no disco de Chico em 1978.
Na minha história pessoal, faz par político com Cálice, canção sobre a qual já falei aqui.
As referências das letras são bastante óbvias, mesmo que o eu-poético do compositor queira travestir a crítica ao regime como uma querela romântica:
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Essa canção trouxe um forte conteúdo ao meu discurso e ação social e política: nenhuma opressão é para sempre, nenhuma dominação é eterna. Todos os opressores cairão, todos os impérios serão depostos, todo poder sempre passará pelas mãos do povo.
Claro que há uma dose utópica nessas afirmações, mas quando lembramos que a música foi composta no momento mais duro de um regime militar que fatalmente chegou ao fim, podemos ter esperança que todo ditador terá, uma dia, que ver a manhã renascer e esbanjar poesia.
Essa canção é certamente uma das vozes que ecoa em meu discurso com mais força. Ouvi muito em minha infância, ouço muito ainda hoje. Ela ainda me fala ao coração e alimenta minhas forças e esperanças.
Pensei em retomar As coisas que aprendi nos discos hoje e com essa música ao perceber que a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), em meio à crise que assola sua gestão e à força das manifestações do Movimento #ForaMicarla, tem tomado cada vez mais atitudes que a aproximam do ditador sírio Al-Assad: intimidação por e-mail, ameaça armada, acompanhamento por assessores próximos das marchas #ForaMicarla, infiltração, colocação de drogas e camisinhas no pátio da Câmara Municipal ocupada. Quando debatemos com filiados ou assessores em redes sociais, percebemos o quanto o movimento incomoda e o quanto as reações oficiais são impensadas e desesperadas. As ações do grupo micarlista em defesa da prefeita estão beirando um desespero sem par.
Micarla assume uma postura anti-democrática, acusando os manifestantes de baderneiros. Não há diálogo nem negociação. Dois vereadores imbricados até as almas com a gestão são o presidente e o relator da CEI dos Aluguéis instalada para investigar suspeitas sobre locações da prefeitura. A situação é difícil. Mas, podemos estar certo,amanhã será outro dia.
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