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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O amor do Senhor não se acaba

O amor do Senhor não se acaba

 

Mas a esperança volta quando penso no seguinte: O amor do Senhor Deus não se acaba e a Sua bondade não tem fim.  Esse amor e essa bondade são novos todas as manhãs; e como é grande a fidelidade do Senhor!

Lamentações 3. 21 ? 23

 

Chico Buarque traduziu um sentimento que muitas vezes nos alcança como ser humano em uma das suas composições mais conhecidas: Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu/ A gente estancou de repente/ Ou foi o mundo então que cresceu/ A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mardar/ Mas eis que chega a roda viva/ E carrega o destino prá lá (Roda Viva).  Vez por outra, somos de tal maneira abatidos, que parece que apenas nos resta ficarmos imóveis.  O mundo cresceu de mais a nossa volta.  Perdemos o controle das coisas.  A gente se sente como quem partiu ou morreu.

Hoje eu me senti assim, um tanto impotente diante das coisas.  Comecei o dia em um cemitério.  O pai de uma irmã lá da igreja em que presto assistência no interior do estado faleceu ontem.  Pela manhã, fomos até o enterro.  O homem tinha apenas 63 anos, mas era bastante doente.  Fiquei curioso de perceber como os mais pobres e humildes encaram a morte de uma maneira completamente diferente, com suas crendices e costumes.  A principal diferença era de espírito.  A sensação que me dava é que as pessoas já estão tão habituadas ao sofrimento que a morte, mesmo de um ente querido, não lhes abala tanto quanto costuma mexer em nossas vidas de classe média.  Mas, de qualquer forma, é triste um enterro.  É um momento de profunda impotência.  Um momento de dor, quando o mundo parece parar e crescer de repente.  É doloroso e triste encarar a morte assim de frente. 

Nessa situação, penso no que escreve o profeta no livro de Lamentações.  É um momento de muita dor, de destruição, de morte.  É um momento de tristeza profunda, inclusive pessoalmente para o próprio Jeremias.  Apesar disso, ele é capaz de falar algo que nos aponta a certeza de que paz, alegria e escape são possíveis nos momentos de maior tristeza: Mas a esperança volta quando penso no seguinte: O amor do Senhor Deus não se acaba e a Sua bondade não tem fim.  Esse amor e essa bondade são novos todas as manhãs; e como é grande a fidelidade do Senhor!

O capítulo 3 de Lamentações descreve uma situação difícil que o profeta enfrenta, em meio a destruição que Jerusalém passou.  O mais interessante é que Jeremias não tributa esse mal a nenhuma outra causa, que não o Senhor.  Vários versículo mostram um homem profundamente convicto de que o Senhor controla cada aspecto de sua vida.  Que nada acontece com Ele fora da vontade de Deus.  Mas, que, por vezes, Deus se vê obrigado a tratá-lo de maneira mais dura, causar-lhe dor e sofrimento, a fim de que se coloque, novamente, no centro de Sua vontade.

Parece que no agir para moldar o caráter de Seu servo, Deus está mostrando que não mede esforços.  Não nos poupará de nenhuma tristeza ou sofrimento, se isso puder fazer-nos ser exatamente aquilo que Ele quer.  Toda tristeza que pode nos fazer sentir perdidos, impotentes, vazios, como mortos, podem ser instrumentos do Senhor para nos fazer o que é Seu projeto.  A confissão de Jeremias é bastante dura e honesta: Eu sou aquele que sabe o que é sofrer os golpes da ira de Deus.  Ele me levou para a escuridão e me fez andar por caminhos sem luz.  Com Sua mão, me bateu várias vezes, o dia inteiro. (...) Em volta de mim, Ele construiu um muro de sofrimento e amargura.  Ele me fez morar na escuridão, como se eu estivesse morto há muito tempo.  Deus me amarrou com pesadas correntes; estou na prisão e não posso escapar.  (...) Não posso seguir em frente, pois, com grandes blocos de pedra, Ele fechou o meu caminho. (...) Ele me afastou do caminho, me fez em pedaços e depois me abandonou.  (...) Eu lembro da minha tristeza e solidão, das amarguras e dos sofrimentos.  Penso sempre nisso e fico abatido (Lm. 3. 1 ? 3; 5 ? 7, 9, 11, 19 ? 20).

Quem pôs o profeta em situação de se sentir perdido?  Quem o fez se sentir como quem já partiu ou morreu?  Quem lhe colocou essa tristeza de morte no seu coração?  A resposta do profeta é única: foi o Senhor.  Mas não fez isso com prazer nem sem propósito.  Quando Deus nos faz sofrer, devemos ficar sozinhos, pacientes e em silêncio.  Devemos nos curvar, humildes, pois ainda pode haver esperança.  (...) Não é com prazer que Ele nos causa sofrimento ou dor (Lm. 3. 28 ? 29; 33).

Diante de um quadro como esse, em que sofrimento e dor, mesmo que não saibamos como, são provocados por Deus, com um propósito bem definido de Sua parte, só nos resta termos a confiança de que, apesar de tudo, Seu amor nunca acaba.  Esta é a mensagem central do desabafo de Jeremias.  E é o conforto que Deus quer nos trazer quando nos sentimos perdidos, abatidos, como quem já morreu.  Quando a dor, a tristeza e o sofrimento nos abalam terrivelmente.  Mas a esperança volta quando penso no seguinte: O amor do Senhor Deus não se acaba e a Sua bondade não tem fim.  Esse amor e essa bondade são novos todas as manhãs; e como é grande a fidelidade do Senhor!

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

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