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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Últimas chances

Últimas chances

 

Cuidado!  O Senhor, o Deus Todo-Poderoso, vai tirar de Jerusalém e de Judá todo o sustento e todo o mantimento; não haverá nem comida nem água.

Isaías 3. 1.

 

Morro de medo de perder as últimas chances, de permitir que o tempo se esgote, de repentinamente perceber que é tarde para que qualquer mude ou se salve.  Acho que esse é um dos elementos que me atraem em 24 horas: a idéia de que toda hora é uma hora limite.  A noção de que as chances se esvaem e as possibilidades de transformação se acabam logo.

A relação de Deus com Seu povo sempre foi assim.  E eu sempre me sinto no limite da Sua graça e da Sua longanimidade.  Tantas vezes Deus estendeu as Suas mãos benevolentes para proteger e cuidar do Seu Povo.  E outras tantas vezes o povo Lhe virou as costas, abandonando a Fonte das Águas Vivas, preferindo toda cisterna rota, como denuncia o profeta Jeremias (Jr. 2. 13).

Vez após vez, Deus renovou a Sua graça.  Tenho medo de viver o tempo em que seja tarde demais para que a graça se renove.  Tenho medo de viver o tempo em que a única coisa que reste seja o juízo.  Juízo realizado sob a bandeira do Amor Eterno de Deus, mas, de todo jeito, juízo.

Já escrevi comparando os capítulos 18 e 19 de Jeremias.  No 18, Deus o manda ir à casa do oleiro e, observando como o homem pode recomeçar a fazer o vaso toda vez que comete um erro, Deus afirma ao profeta que ainda há tempo de restauração para o povo: Será que eu não posso fazer com o povo de Israel o mesmo que o oleiro faz com o barro?  Vocês estão nas minhas mãos assim como o barro está nas mãos do oleiro (Jr. 18. 6).  Aqui, ainda havia tempo para recomeçar, para restaurar.  No capítulo seguinte, a história muda de figura.  Jeremias é enviado a comprar um pote já feito e, diante da liderança do templo, quebrar o vaso: Como se quebra um pote, e ele não pode mais ser consertado, assim eu quebrarei este povo e esta cidade (Jr. 19. 11).  Desta vez, o tempo estava esgotado.  Não havia mais redenção possível, arrependimento, recomeço.  A cidade seria quebrada como o vaso que Jeremias quebrou.

Esta semana falei sobre Jesus chorando sobre Jerusalém.  O fim da cidade está próximo.  Jesus lhe anuncia o juízo, que não deixa de ser repleto de amor, ao ponto de que o Senhor chora: Ah! Jerusalém!  Se hoje mesmo você soubesse o que é preciso para conseguir a paz!  Mas agora você não pode ver isso.  Pois chegarão os dias em que os inimigos vão cercá-la com rampas de ataque, e vão rodeá-la, e apertá-la de todos os lados.  Eles destruirão completamente você e todos os seus moradores.  Não ficará uma pedra em cima da outra, porque você não reconheceu o tempo em que Deus veio para salvá-la (Lc. 19. 42 ? 44).

Tenho medo de viver em um tempo em que a única coisa que nos resta é o juízo.  Tenho medo de viver uma vida que, resoluta, só possa ser tratada por Deus de uma maneira dura e implacável, mesmo que cheia de amor.  Tenho medo de estar perdendo, ou de ver se perderem, as últimas chances de arrependimento e arrependimento.

Tenho medo de que palavras como essas se dirijam a mim ou a você: Cuidado!  O Senhor, o Deus Todo-Poderoso, vai tirar de Jerusalém e de Judá todo o sustento e todo o mantimento; não haverá nem comida nem água.  Ele vai tirar também todas as pessoas importantes: os homens corajosos e os soldados, os juízes e os profetas, os adivinhos e os sábios, os oficiais do exército e as autoridades civis, os conselheiros e todos os feiticeiros.  O Senhor escolherá meninos para governar o seu povo; o poder ficará nas mãos de crianças.  Todos perseguirão uns aos outros, cada um explorará o seu vizinho.  Os jovens não respeitarão os velhos, e gente que não vale nada desprezará pessoas honestas (Is. 3. 1 ? 5).  Tenho medo, porque segundo esse texto, crise na liderança, crise nos relacionamentos, e perda do sustento são sinais do juízo de Deus em curso contra o Seu povo.  E, às vezes, tem sido somente isso que a gente vê, olhando de um a outro lado.  Às vezes, por mais que busquemos o nosso sustento espiritual, o Pão do Céu ou Água da Vida, nos sentimos como esfomeados e sedentos no deserto.  Às vezes, tenho medo de que isso signifique que nosso tempo passou.  Tenho medo de estar sob o juízo amoroso de Deus.

Segundo o profeta, ainda, a causa da tragédia é bem conhecida e definida: Jerusalém está arrasada, a terra de Judá está em ruínas.  Pois com as suas palavras e as suas ações o povo desafia o Senhor e ofende a Sua gloriosa presença (Is. 3. 8).  Tenho medo de que estejamos ofendendo a santidade do Senhor, sendo injustos em nossa ações, desiguais em nossos tratamentos, e desavergonhados em nossos pecados (Is. 3. 9).  Tenho medo de ser um desses, porque diz o Senhor: Ai deles, pois estão trazendo sobre si mesmos o castigo da sua própria maldade! (Is. 3. 9).

Textos assim me desafiam a repensar a minha prática, pensar a nossa vivência diante de Deus, e me conduzem a clamar por misericórdia diante do Senhor.  Espero que ainda possamos nos prostrar ante Ele.  Espero que ainda encontremos espaço para arrependimento e restauração.  Espero que não tenhamos perdido as nossas últimas chances.  Examine o seu coração e se arrependa enquanto for tempo de encontrar o Deus gracioso.

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

 

 

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