Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Fome e sede

Fome e sede

 

Aquele que tem sede venha.  E quem quiser receba de graça da água da vida.

Apocalipse 22. 17

 

 

Esta é uma das fotos mais famosas do mundo, apesar de eu ter certeza que muitos de nós jamais a viram.  Talvez seja a representação mais vívida da miséria que o ser humano conseguiu registrar.  E de uma miséria mais profunda que a fome e a sede.

Era o início dos anos 90.  O país era o Sudão.  O fotógrafo era o sul-africano Kevin Carter, de 33 anos.  Com essa foto ele ganhou o prêmio Pulitzer em 1994.  Por essa foto, ele se suicidou seis meses depois.

Aqui, está retratada a miséria humana.  Um abutre aguarda, pacientemente, a morte desta pequena menininha, faminta e sedenta, abandonada, não à própria sorte, mas à própria morte.  Obviamente, vamos nos perguntando sobre o que teria acontecido aos seus parentes, à sua família.  Pela sua situação, não é difícil imaginar que não tenham escapado de destino semelhante ao dela.  Em poucos minutos, ela estaria morta e seria banquete do abutre.

Dificilmente alguma imagem revelaria tão cruamente a miséria humana.  A pobreza, a fome, a sede, a exploração, o mal, enfim, do coração humano se revelam quando imaginamos que nós, seres humanos, somos capazes de permitir que tragédias assim se repitam e aconteçam a todo tempo, em toda parte.  Dificilmente alguma outra imagem seria tão cruel a ponto de revelar assim o terrível pecado que impregnou a nossa natureza.

Mas aqui há outra miséria revelada.  A do fotógrafo.  Ela se traduz de duas maneiras.  Primeiro: como deve ter se sentido miserável este homem que faturou e foi premiado em cima da morte e da tragédia!  Registrar essa cena é peso demais para qualquer coração humano, que só pode aumentar quando o produto desta cena é vendido e confere retorno e notoriedade ao autor. 

Por outro lado, a pior miséria de Kevin Carter foi constatar a sua impotência para salvar aquela menininha do abutre que a assediava e da fome que a matava.  Além de faturar sobre a tragédia, ele testemunhou a cruel morte que a miséria provoca.  Sem poder fazer muita coisa para impedir.  Seu coração se tornara, então, tão miserável quanto aquela cena que ele registrava.

O cúmulo do sofrimento e da depressão de Carter foi a premiação com o Pulitzer por causa daquela tragédia.  Meses depois, ele deu cabo da própria vida.  Vida que ficara muito pesada, carregada de toda a miséria que ele vivenciou e imprimiu no peito e na alma.

Aquele que tem sede venha.  E quem quiser receba de graça da água da vida.  Só uma coisa poderia transformar esta tragédia toda, tanto a de Carter, quanto a da menina sudanesa: só o amor de Jesus.  E aqui não se trata de nenhuma proposta utópica ou espiritualista.  É preciso que testemunhemos esse amor que julgamos ter por nossas palavras e por nossos atos. 

Só o amor de Jesus pode nos conduzir à ação de mudança do quadro terrível de miséria em que muitos adultos e crianças como aquela menininha, se encontram.  Não serve ao cristão a desculpa proposta pela evangelização ?pé na cova?, que só se importa com o Reino Vindouro, com a Nova Jerusalém, acreditando que a solução de tudo e a mudança do mundo não podem ser, de forma nenhuma, experimentados e promovidos pelo ministério vivo dos cristãos, embaixadores de Cristo.  Precisamos olhar para miséria e fixarmos os nossos olhos nela a fim de lutar para diminuí-la.  E não mais olhar para ela, desviando nossos olhos para a glória, na ansiosa expectativa de ser recebido no céu, fugindo de nossos compromissos.  Estamos aqui para transformar o mundo.  O mundo miserável precisa conhecer o convite: Aquele que tem sede venha.  E quem quiser receba de graça da água da vida.

Existe, também, muita gente vivendo no desespero de Kevin Carter.  Precisamos mostrar a essas pessoas que ainda há esperança no amor de Deus, que desfaz todo desespero.  Tais pessoas precisam e podem se deparar com a realidade do convite: Aquele que tem sede venha.  E quem quiser receba de graça da água da vida.  E, apesar de toda a miséria que encontra no mundo e que se encontra no coração, podem encontrar a vida, no meio da morte, que Jesus dá ao que crê.

A miséria, a fome e a sede, materiais ou espirituais, podem ser vencidas por Jesus.  Por nós, seus embaixadores.  É só lembrar do convite: Aquele que tem sede venha.  E quem quiser receba de graça da água da vida.

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

 

Comentários

Postagens mais visitadas