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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Compaixão

Compaixão

 

Quando Jesus saiu do barco e viu aquela grande multidão, ficou com muita pena deles e curou os doentes que estavam ali.

Mateus 14. 14.

 

No último sábado comprei uma camiseta que sempre quis ter.  Ela traz a mais famosa foto de Che Guevara e frases conhecidas dele: Viva la Revolucion! Hasta la victoria siempre!  Ontem à noite fui à igreja com ela.

Depois fiquei pensando que aquela camisa podia ser mal-entendida pelos meus irmãos.  Especialmente pelo fato de que ninguém entende bem as idéias que fundamentam qualquer ideal revolucionário.  Então, a pergunta inevitável seria: Como pode um cristão andar com a foto de um revolucionário?  Eu poderia responder com uma outra pergunta: Como pode um cristão não ser um revolucionário?

Quem assistiu Diários de Motocicleta, mesmo que faça todas as ressalvas devidas à construção romântica da figura de Che, pôde entender como nasce um ideal revolucionário.  E, mais ainda, que o ideal de Guevara não se produziu em um contexto anti-cristão ou anti-bíblico.  Sua execução pode ter sido contrária às Escrituras, mas o processo de nascimento é profundamente vinculado aos princípios do Evangelho de Jesus.

O filme narra a viagem de Che e de seu parceiro Alberto Granado, de moto, pelas terras latino-americanas, quando o futuro revolucionário ainda era um jovem estudante de medicina.  O ponto final da viagem seria um leprosário na Amazônia peruana.  No caminho, a dupla descobre, pouco a pouco, a miséria, a exploração e a injustiça no continente.  Ao chegar no leprosário, eles revolucionam o atendimento preconceituoso e de isolamento que, até então, se dava aos doentes.  Mesmo em tratamento e, por isso, sendo impossível o contágio, os doentes eram isolados em uma ilha.  As religiosas não permitiam que se misturassem.  Na noite de seu aniversário, o asmático Ernesto atravessa o rio a nado, apenas para poder celebrar com os seus amigos leprosos na colônia da outra margem.

O ideal revolucionário nasce da capacidade de se indignar com a injustiça e de ter compaixão pelos oprimidos.  E, daí, ele conduz a uma ação em favor de mudança.  Quando Jesus saiu do barco e viu aquela grande multidão, ficou com muita pena deles e curou os doentes que estavam ali.

Jesus era alguém que se compadecia e se indignava, e, conduzido pelo amor, agiu para transformar o mundo, sem nenhuma dúvida.  Esse era o propósito de Sua vida, Seu ministério, Seu compromisso.

Quando Jesus se encontra com o jovem rico (Lc. 18. 18 ? 27), o desafia a assumir um compromisso duplo, em resposta à sua pergunta sobre o que fazer para ser salvo: compromisso com o próprio Senhor, em primeiro lugar, e compromisso com os pobres.  O rico rejeita a salvação porque é incapaz de se comprometer com os pobres.

Indignação com a injustiça, compaixão pelos oprimidos e compromisso com a transformação do mundo são coisas impressas em nosso coração pelo amor de Deus.  Ser cristão, por isso, é ser revolucionário, mesmo que nunca necessitemos realizar uma revolução armada.  A nossa revolução é conduzida pela força do Evangelho e pela luta por mudança.

Outro dia dizia a uma amiga que ela não podia perder a capacidade de se indignar com a injustiça, sob pena de perder, junto com isso, o seu compromisso com Deus. 

Podemos, por fim, não aceitar as práticas de Che, mas não podemos deixar de constatar que seu ideal, nascido da compaixão e da indignação, não diverge tanto do compromisso de Jesus quanto gostariam alguns.  Quando Jesus saiu do barco e viu aquela grande multidão, ficou com muita pena deles e curou os doentes que estavam ali.

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

 

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