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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Tudo dá certo

Tudo dá certo

 

Assim também tudo o que essas pessoas fazem dá certo.

Salmo 1. 3.

 

Não sei exatamente o porquê, mas nos últimos dias estou com esse texto na minha cabeça e no meu coração.  Como se estivesse sendo tomado por uma ?ousada certeza? que nunca antes experimentei.  E, claro, esse processo me forçou naturalmente a pensar no que isso deve significar para mim.  O que devo entender disso?

Talvez pela minha formação teológica e intelectual eu sempre tive muita dificuldade para compreender uma passagem como essa.  Se Deus é soberano, se Ele é o Senhor, e eu não passo de um servo inútil, como posso afirmar que tudo o que eu faça dará certo, será bem sucedido?  Será que não posso errar meus julgamentos?  Será que a vida é feita apenas de vitórias?  Mas não é difícil perceber que existem condições para que a idéia do Salmo 1 possa se efetivar na vida cristã.  Logo, as perguntas que devemos fazer ao texto, de início, não são as que fiz por muito tempo, estas que citei acima.  O Salmo 1 não trata disso.  Não questiona a Soberania de Deus.  Não exalta o poder de ação do homem, nem uma possível impossibilidade de errar desse homem.  O Salmo 1 não fala de uma vida de vitórias no sentido apregoado por aí, no mundo contemporâneo.  Pregação que costuma esquecer que a maior vitória do universo foi conquistada no sofrimento e na morte em uma cruz.  Por isso, o porquê que devemos buscar é outro. 

A realidade do Salmo 1 é a comunhão e intimidade com Deus.  O Salmo 1 aponta a dupla possibilidade de escolha que tem o ser humano no mundo.  De um lado, a vida.  Do outro, a morte.  E, no mundo condenado a escolher, o homem pode optar pelo caminho feliz, de vida: a comunhão íntima com Deus, traduzida no deixar de lado o conselho dos maus, seus exemplos, sua companhia.  A comunhão com Deus ainda se manifesta no prazer que este feliz passa a ter na leitura e meditação da Palavra de Deus.  Vida de intimidade, de oração, de paz, de gozo.

É disso que fala o Salmo.  É disso que ele fala quando nos diz que tudo o que essas pessoas fazem dá certo.  Não é porque haja méritos nelas que as tornem imbatíveis.  A única coisa que faz a diferença é que, agora, elas andam na intimidade do Senhor, dia a dia.  E, assim, têm aprendido com Ele acerca dos desejos, dos sonhos, dos planos e dos projetos dEle em suas vidas.  Tudo o que elas fazem dá certo porque seu coração se ligou de tal maneira ao do Senhor que agora tudo o que elas querem e tudo o que fazem depende de Deus, se centra na vontade dEle para a sua vida. 

O único jeito que nós temos de sermos bem-sucedidos em tudo é fazermos tudo dentro do que Deus revela ser Sua vontade para nós.  Isso significa que não devemos fazer nossos projetos, construir nossos planos, iniciar as nossas ações e, depois, pedir a Deus a Sua bênção para isso, esperando que, no fim, todas as coisas prosperem.  Se podemos saber que todas as coisas darão certo é porque, antes mesmo de sonhá-las ou pensá-las, nosso prazer está na comunhão e intimidade com Deus.  Nossa vida se rende ao Senhor e o nosso coração O busca inteiramente.  Dessa maneira, esperamos no Senhor que Ele revele seus projetos, planos e ações para tudo.  Esperamos que Ele nos mostre a Sua vontade, antes de darmos o primeiro passo.  Não sonhamos mais os nossos sonhos sozinhos, mas desejamos ardentemente sonhar os sonhos de Deus para nós.  Aguardamos, buscando a Sua face, tendo nEle o nosso prazer, fazendo dEle a nossa vida.  Meditando na Sua Lei.  Amando-O e andando com Ele.  E, assim, não são mais os nossos planos, ou nossa vontade, ou nossa ação, mas sim os de Deus.  Tudo o que fazemos dá certo porque não fazemos as nossas coisas, mas sim as de Deus.  Somos, desse modo, apenas cooperadores da obra dEle no mundo e em nossas vidas.  Assim também tudo o que essas pessoas fazem dá certo, porque tudo o que Deus faz dá certo.

É impossível não me lembrar agora de uma passagem de Israel no deserto.  Um pouco depois do episódio do bezerro de ouro, após a purificação do pecado do povo, Moisés trava um interessante diálogo com o Senhor.  É verdade que me mandaste guiar este povo para aquela terra, porém não me disseste quem é que irá comigo.  Disseste que me conheces bem e que estás contente comigo.  Agora, se isso é assim mesmo, fala-me dos teus planos para eu possa te servir e continuar a te agradar.  Lembra que escolheste esta nação para ser tua (Ex. 33. 12 ? 13).  Moisés, primeiramente, pede que Deus revele que planos têm para o povo e para si mesmo, sua liderança, antes de tomar qualquer iniciativa de ação.  Isso devia nos inspirar.  E aí, diante da resposta do Senhor, Moisés fala palavras que deviam estar profundamente gravadas em nosso coração, em nossa mente, em nossa vida.  Deus disse: - Eu irei com você e lhe darei a vitória.  Então Moisés respondeu: - Se não fores com o teu povo, não nos faça sair deste lugar.  (...) A tua presença é que mostrará que somos diferentes dos outros povos da terra (Ex. 33. 14 ? 16).

Se tudo o que fazemos dá certo não é porque somos mais especiais que ninguém, mas sim porque, aprendendo a viver na dimensão da comunhão e intimidade com o Senhor, sonhamos os Seus sonhos, vivemos os Seus planos.  Se tudo o que fazemos dá certo é porque aprendemos a conhecer a vontade de Deus e cooperamos com ela. 

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

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