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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Consciência e realidade

Consciência e realidade

 

Senhor, afaste-se de mim, pois eu sou um pecador!

Lucas 5. 8.

 

Sujeito assujeitado é um termo de uma disciplina chamada Análise do Discurso, aparecendo também em outras perspectivas que fazem o estudo da Ideologia.  Significa o indíviduo que, inconsciente de viver imerso em uma estrutura ideológica, torna-se inconsciente também de que sua fala e seu discurso não passam de meras reproduções de formações discursivas ideológicas.  Mais que isso: sua própria forma de viver e ver o mundo é estruturada tendo por fundamento a ideologia na qual ele se insere.  A pior parte de se ser um sujeito assujeitado é a ilusão que cria a ideologia de que aquilo que você diz é produção sua, quando, na verdade, você está ?sendo falado? por outras vozes.  Quer dizer, por mais que você ache que seu modo de ver o mundo e suas falas sejam originais [só você pensa como você], não deixam de ser aquilo que uma ideologia quer que você pense e fale.  Você é apenas uma espécie de papagaio.

Todos nós somos assujeitados a alguma concepção ideológica.  Porque todos nós vivemos em um mundo imerso em ideologias.  A diferença que pode haver entre nós é o nível de consciência que teremos.  Podemos ser mais ou menos conscientes da ideologia e do mundo em que vivemos.  É aqui que reside a grande diferença: podemos ter consciência da nossa realidade.  Ou não.  Podemos sair do nível ingênuo, ou nos perpetuarmos no assujeitamento ideológico.

Mais uma vez vou pedir perdão por citar um filme.  O 13º Andar é uma ficção científica de primeira que nos fala, entre muitas coisas, acerca da tomada de consciência a respeito da realidade.  No início somos transportados para uma cidade americana dos anos 30 [Chicago, se não me engano].  Logo descobrimos que essa cidade não existe em mundo concreto.  Ela é uma simulação de computador, inclusive seus habitantes.  No entanto, uma interface permite que os cientistas entrem na simulação e interajam com os programas inteligentes.  Aliás, esses programas são ?avatares? [me permitam, pois é o termo usual] de personalidades do mundo concreto.  Assim, quando fazem a interface, as pessoas assumem os papéis de seus avatares no mundo simulado.

Nenhum dos programas é consciente.  Eles não têm nem consciência suficiente para se questionar porque seu mundo é tão pequeno: eles nunca saem da cidade porque o fim da cidade é o fim do seu mundo, literalmente.  É onde acaba a simulação.  Mas eles não sabem disso.  Foram apenas programados assim.  Tudo mudaria, se eles tomassem consciência desse fato.  Eles vivem em um mundo limitado, inconscientemente.

O filme, a partir do assassinato de um dos cientistas do projeto, narra como se dá uma tomada de consciência a respeito do mundo real.  E mostra que a profundidade de nossa percepção da realidade concreta é diretamente proporcional ao tamanho da consciência que nós temos de nós mesmos e deste mundo.  Em outras palavras, o filme me inspira a entender que quando mais conscientes somos a nosso respeito e a respeito da realidade do mundo, mais conseguimos nos libertar do assujeitamento.  Quando mais somos conscientes, mais entendemos o mundo, mais alargamos nossa visão da realidade.  O tamanho da nossa realidade, ou sua profundidade, é diretamente proporcional à nossa consciência.  A realidade, assim, se assemelharia às camadas de uma cebola.  Quando mais profunda é nossa consciência, mais profunda se torna nossa percepção da realidade, como se passemos de uma camada exterior para uma mais profunda da cebola.

É claro que você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o texto de Lucas.  O momento citado no capítulo 5 de Lucas é o momento que manifesta a tomada de consciência de Pedro.  Ele se conscientiza acerca de quem ele é e de quem é Jesus.  É o primeiro passo para largar o assujeitamento em que vive e passar a ver o mundo real de maneira mais profunda, a partir do ponto vista concedido por Deus.  Após contemplar a maravilhosa pesca, fruto do milagre de Jesus, Pedro se toca que Aquele que está ali é puramente Santo e Todo-Poderoso.  E, percebendo isso, percebe o seu próprio pecado e sua incapacidade em permanecer na presença dEle.  É preciso fugir, já que Deus é santo e eu sou pecador.

Mas essa tomada de consciência, como dizia, é o primeiro passo para aprofundar nossa visão de mundo.  A partir daí, podemos ir mais fundo.  Podemos mergulhar em uma relação de cada vez mais intimidade com Deus e, a partir disso, mais conscientes de nós mesmos e do Senhor, podemos largar o assujeitamento.  O mundo, que jaz no maligno, nos quer cegos e assujeitados.  Podemos, no entanto, olhar para o mundo de outra forma.  E isso acontece dentro de um processo de tomada de consciência, que nos mostra a realidade de maneira mais profunda.  Além de vermos mais longe [o mundo não precisa ser limitado], vemos mais fundo.  Vemos a realidade mais profunda de maneira mais absoluta.  Vemos a totalidade, porque vemos do ponto de vista de Deus.  Quando mais íntimos do Senhor nos colocamos, mais libertos de uma visão e consciência limitada de mundo estaremos.  Mais libertos de uma consciência limitada acerca de nós mesmos.  Mais experimentaremos a profundidade da realidade total em que nos encontramos.  Descobriremos, assim, que existem mais mistérios entre os céus e a terra do que podem sonhar todos os filósofos, como diria Shakespeare.

Mergulhe de cabeça em uma relação de Deus.  Quando mais próximo dEle, mais consciente de si e do mundo.  Maior seu mundo, mais profunda sua visão.  Maior sua percepção e experiência da realidade da vida.  A intimidade do Senhor é o desejo que Ele tem para nossas próprias vidas.  Porque Ele veio nos libertar, e se Ele nos libertar seremos verdadeiramente livres.

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

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