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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ansiedade

Ansiedade

 

Por isso, não fiquem preocupados com o dia de amanhã...

Mateus 6. 34.

 

A segunda semana é a pior semana do meu mês.  São os dias mais angustiantes da minha vida.  É geralmente na segunda semana do mês que recebo o meu pagamento.  Mas como ele não tem uma data fixa, dependendo da boa vontade da universidade em repassar a verba da Capes, sofro demais.  Minha primeira conta em débito automático vence no dia 12.  Nunca estou certo de que terei o dinheiro para cobri-la.  Ontem aconteceu isso.  Acordei, acessei minha conta e descobri que estava devendo dinheiro ao banco: nenhum centavo da bolsa havia entrado e a minha conta tinha sido debitada.

Os dias 11, 12 e 13 de cada mês são os mais angustiantes na minha vida.  São os dias de maior e mais intensa ansiedade.  As caspas explodem na minha cabeça, fico irritadiço.  Sofro demais e outras pessoas terminam sofrendo por extensão.  O ruim é descobrir e perceber que não adianta de nada sofrer assim.  O dito popular diz que o que não tem remédio remediado está.  Jesus diz que nenhum de nós pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso (Mt. 6. 27).

Pior ainda é perceber com clareza que toda ansiedade não serve para nada, muito menos para resolver qualquer coisa.  Por mais que nos preocupemos com alguma coisa, e geralmente as coisas que mais nos pré-ocupam se relacionam a dinheiro, no fim de tudo, todas as coisas acontecerão e não teremos a menor chance de controlar coisa alguma.  E percebemos que manter a ansiedade beira à nossa estupidez porque estamos ansiosos por acreditar que temos alguma chance de controlar os eventos de nossa vida, quando, na verdade, não temos, nunca tivemos e nunca teremos o controle da nossa vida totalmente nas mãos.  As coisas que nos acontecem não podem ser controladas ou conduzidas por nós mesmos e, quando não percebemos isso, resta-nos a profunda ansiedade de querer ter o leme nas mãos e nunca alcançar a cabina de comando.  A vida é, aproximadamente, como ilustra a metáfora de Forrest Gump: aquela pena conduzida pelo vento.  Quer nos conformemos ou não, não a controlamos em absoluto.

É sobre isso que fala Jesus.  Ele fala, nós pregamos, mas muito poucos de nós realmente ouvimos.  Em primeiro lugar, Ele esclarece que a vida é mais que comida, bebida ou roupas.  A vida é mais que as coisas que sabemos ser as mais essenciais da vida.  E é mais que isso porque o Deus que veste as flores do campo, alimenta os passarinhos, cuida com tanto carinho de Sua Criação é o supridor de todas as nossas necessidades básicas.  Ele cuida da Criação e não cuidará de nós?  Portanto, não fiquem preocupados, perguntando: ?Onde é que vamos arranjar comida?? ou ?Onde é que vamos arranjar bebida?? ou ?Onde é que vamos arranjar roupas?? (Mt. 6. 31).

Afirmar que nós não temos o controle da nossa vida não significa dizer que ela está fadada a ser sem controle.  Afirmar que ela é como aquela pena do filme de Tom Hanks não significa que ela segue de qualquer jeito, como canta Zeca Pagodinho (Deixa a vida me levar, vida leva eu...).  O texto nos convida a entregar o controle absoluto de nossa vida nas mãos de Deus.  E essa vida rendida a Deus, a vida do Espírito, é a aquela vida levada por um Vento diferente: O vento sopra onde quer, e ouve-se o barulho que ele faz, mas não se sabe de onde ele vem, nem para onde vai. A mesma coisa acontece com todos os que nascem do Espírito (Jo. 3. 8).  A vida que entrega o controle, o leme, a direção nas mãos do Pai.  Vida na qual rendemos qualquer intenção de ter o controle.  Qualquer mesmo.  E colocamos como prioridade, não mais a tentativa de dirigi-la por nós mesmos, mas sim as coisas mais importantes do mundo: Portanto, ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e Ele lhes dará todas essas coisas (Mt. 6. 33). 

É isso.  A vida do homem é mais que comida, bebida ou roupas.   Essas jamais podem ser ou serão as coisas mais importantes da vida.  A coisa mais importante da vida é de outro teor.  É graça, que é melhor que a vida (Sl. 63. 3).  É Reino de Deus, pois o Reino de Deus não é uma questão de comida ou de bebida, mas de viver corretamente, em paz e com a alegria que o Espírito Santo dá (Rm. 14. 17).

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

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