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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Eu tenho uma seqüência de fotos de quando eu não passava de uns poucos meses de vida. De início, eu estava agitado. Aos poucos, ouvindo música, eu fui me acalmando. Até que baixei a cabeça, apoiei-a sobre a mão e, nitidamente, fiquei concentrado, ouvindo, pensando naquilo que ouvia.
Era Chico Buarque. Aquela minha reação só acontecia quando ouvia Chico Buarque. Minha mãe já me punha para escutá-lo ainda no seu ventre. Desde antes de nascer, eu já era fã de Chico.
Sábado, ele fez sessenta anos. Eu faço a mesma ressalva a todas as homenagens e reportagens exibidas pela tevê naquela ocasião: ninguém, em nenhum instante, falou sobre seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, um dos maiores intelectuais do Brasil no século passado. Não acredito que tal menção desmereceria Chico. Mas, ao contrário, serviria para que as novas gerações pudessem ter a dimensão do significado desta família no país.
Enfim, Chico Buarque conta, em sua música, a história do Brasil com uma visão bastante crítica e profunda. De todas as suas músicas que eu adoro, destaco a seguinte, retrato e hino do movimento pelas Diretas Já, há vinte anos:

Pelas tabelas

Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se toca com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando um cordão
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando eu vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se toca com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando um cordão
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando eu vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já numa baixela
Claro que ninguém se toca com minha aflição
Quando vi tudo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando um cordão...

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