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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Parece que está chegando ao Brasil a polêmica suscitada pela Paixão de Cristo de Mel Gibson, especialmente no que diz respeito às acusações de anti-semitismo. Como alguém que não assistiu ao filme ainda, mas com base nos relatos da imprensa, acredito que a acusação esteja desfocada. Explico: o filme parece ser fiel aos evangelhos e eles, unânimes, põe a culpa nos judeus pela morte de Jesus. João é o mais explícito. Nos relatos do julgamento diante de Pilatos, no capítulo 19, é Jesus quem diz: aquele que me entregou ao senhor é culpado de um pecado maior (11). Para este evangelista, todos os inimigos religiosos do Cristo são chamados genericamente de os judeus, aqueles que O entregaram ao governador romano.
Em Mateus está o versículo que baseou toda perseguição que os cristãos perpetraram contra os judeus por séculos e séculos. A Inquisição e a perseguição por parte dos protestantes beberam daí. No capítulo 27, Pilatos lava as mãos e diz que não é responsável pela morte do Filho de Deus, ao que a multidão responde: Que o castigo por esta morte caia sobre nós e sobre os nossos filhos! (25).
Dessa forma, me parece que as críticas estão dirigidas ao alvo errado. Os evangelistas, antes de Gibson, acusam os judeus pela morte do Messias. E foi com base nessas acusações que foi construída toda a ideologia de humilhação que o povo judeu sofreu nas nossas mãos.
É claro que há outras leituras a partir de textos assim, ainda que seja impossível isentar os autores da acusação de anti-semitismo. Primeiro, a generalização que João promove visa identificar a liderança do Sinédrio com todo o povo. Quando ele se refere aos judeus como adversários de Jesus fala daqueles que usufruem da estrutura de poder religioso da Palestina da época. São os líderes que manipulam o povo e sua fé.
Segundo, a multidão que clama pela crucificação é a mesma que poucos dias antes recebeu Jesus em Jerusalém como o Messias esperado, aos gritos de Hosana! Glória a Deus nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor. Quer dizer, povo manipulado, incapaz de discernir a mão direita da mão esquerda. De um povo assim não se pode tomar a sério a súplica para que a culpa recaísse sobre eles e seus descendentes. Os líderes, de coração empedernido, foram os únicos verdadeiros culpados pela morte de Jesus.
Em terceiro, e por fim, ainda que admitamos a validade das acusações contra os judeus, elas se referem àqueles judeus das primeiras décadas do primeiro século da Era Cristã. Não poderíamos jamais, coerentemente, aplicá-las aos judeus de épocas posteriores.
Dessa maneira, contar essa história não pode significar reavivar sentimentos anti-semitas. Essa falácia só pode ser fruto dos ressentimentos e mágoas acumuladas pelos judeus por tantos e tantos séculos. As acusações, assim, contra Gibson e seu filme me parecem infundadas.

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