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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Estou lendo Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea, tese de doutoramento de André Lemos, professor da UFBA. Ao contrário das minhas impressões recentes sobre os textos de Pierre Lévy (acredito que o francês pirou), o livro de Lemos é claro, profundo e facilita a nossa compreensão do mundo contemporâneo. É impressionante como somos incapazes de ler o texto sem que façamos imediatos links com realidades (ou ficções) com as quais nos deparamos todo o tempo. Em particular três produtos de entretenimento foram melhor compreendidos por mim através do livro.
O primeiro é a série 24 horas. O grande atrativo do programa não é a ação ou o elenco ou o enredo. O atrativo é o tempo real. Isso deve explicar o seu sucesso nos EUA, aqui ou em qualquer parte, já que, como explica o professor baiano, o tempo real ou presenteísmo, trazidos à concretude pela Internet, é uma das mais fortes características de nossa cibercultura atual. A cibercultura é um novo paradigma, mais amplo que suspeitamos, que está se impondo com o advento das novas tecnologias. 24 horas faz sucesso porque atinge um dos aspectos simbólicos mais essenciais dos nossos dias. E nos fascinamos com a narrativa que nos gera a ilusão de que tudo ocorre de acordo com o nosso cronos, ainda que nossa disponibilização do produto atenda ao tempo oportuno de cada um, ao kairós.
O tempo real e a espetacularização, decorrente disso, do indivíduo explicam o sucesso da vulgaridade chamada Big Brother. Os elementos que a Escola de Frankfurt já analisava, especialmente a questão do mito na cultura de massas, estão presentes no programa, causando uma potencialização relativa à vulgarização espetacular dos sujeitos. Mas o tempo real que se identifica com a ruptura das privacidades, gerando a publicização do privado, nos empolga como espectadores. Entramos na casa das pessoas (ainda que essa casa não seja real e muito menos um lar) movidos pela curiosidade da vida realizada em 24 horas de câmeras abertas e segredos desvendados.
O último produto que foi esclarecido pelo livro de André Lemos foi a trilogia Matrix, já que o autor explica diversas teorias de comunicação na era digital que subjazem à produção dos filmes. E eu posso garantir que muita coisa pode ser melhor entendida quando entramos em contato com estas teorias. Como, por exemplo, o misticismo cibernético que não se relaciona a uma religião no sentido comum, mas entende, como todas as formas místicas tradicionais, que apenas iniciados podem ter acesso a um novo mundo, uma nova realidade do espírito. É assim que se entende a realidade da cibercultura. É assim que se entende a escolha de Neo por descobrir o que é a Matrix.

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