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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Dias atrás assisti a um filme do qual, confesso, não esperava muito. E, falando francamente, Três reis aparentemente não tem nada de muito relevante a dizer. Certamente, um filme despretensioso, para fruir, assistindo na Sessão da Tarde.

Três reis, em uma leitura superficial, não passa de mais um filme que exalta o heroísmo glorioso dos americanos em meio a uma guerra. No caso, é a Guerra do Golfo, de Bush pai. Mais precisamente o filme passa-se ao fim da guerra e relata a tentativa de um ranger, George Clooney, e um grupo de praças de roubar o ouro que o Iraque roubou do Kuwait durante a ocupação. No fim, o grupo converte-se em heróis, sofrendo a corte marcial para dar fuga a um grupo de iraquianos até o Irã. Essa, a leitura superficial.

Mas Três reis merece o cuidado de uma leitura mais aprofundada. Nas entrelinhas, algumas críticas à cultura norte-americana se materializam. O primeiro aspecto, e mais óbvio, é caracterização dos que se converteriam posteriormente em herói. São latrocidas sem caráter, cujo único objetivo é o ouro. Podem salvar algumas pessoas, mas é tudo muito colateral. Até que, por um milagre de consciência, eles findam se convertendo.

Outros pontos que só vou relatar:
1. quando eles entram em território iraquiano, Clooney mostra aos jovens corpos de iraquianos mortos ao longo da estrada. E fala: Nós matamos muita gente aqui, enterramos muita gente viva.
2. ao invadir um esconderijo de tropas leais a Saddam, o grupo está assistindo tevê. E vê, ali cenas, divulgadas mundialmente, de policiais brancos espancando um negro em Los Angeles. Um pouco mais adiante, Matt Damon, capturado é submetido a uma sessão de tortura. O iraquiano lhe diz que sua nação é doente, usando como exemplo Michael Jackson. O que vocês fizeram àquele homem. Fizeram com que ele odiasse a própria raça.
3. na mesma sessão de tortura, o iraquiano explica ao jovem soldado americano que o exército de Saddam foi treinado pelos EUA durante a Guerra contra o Irã. Inclusive, eles receberam instruções de como conduzir um interrogatório (a tortura, é claro) dos americanos. Damon duvida. Como você acha que eu aprendi a sua língua?
4. e ainda na mesma cena, o soldado iraquiano explica que luta porque perdeu sua filha e teve a esposa ferida (ela perdeu as pernas) devido a um bombardeio americano. Você tem filhos? O que você faria se alguém matasse sua filhinha?

Um bom exemplo que é preciso ler as entrelinhas daquilo que vemos. Sempre.

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