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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Fui a um café da manhã nesta manhã. Conduzido pelo meu estimado chefe. O café, na verdade, era o lançamento, entre os pastores, da candidatura à prefeitura de Natal de um publicitário evangélico.

Indignei-me com os discursos.
Alguém estava pregando quando chegamos, usando a Bíblia para ilegitimamente legitimar a necessidade de termos governantes evangélicos. Os nossos pastores não se preocupam muito em disfarçar os reais interesses que fundamentam seus envolvimentos políticos não. Mas não penso que esse seja um espaço suficiente para tratar do assunto.

(Basta dizer que os textos usados são vetero-testamentários: Israel era uma teocracia, fundada no javismo. Inclusive, a intolerância religiosa é algo que salta aos olhos na Torah. Obviamente, os reis deveriam partilhar da fé javista. Mas note: eram reis em uma teocracia. A transplantação das noções para os nossos regimes democráticos ocidentais é completamente ilegítima).

Esse pregador dizia que os evangélicos sempre foram usados como massa de manobra por políticos hipócritas. Agora, nesse momento, deveríamos nos mobilizar para elegermos nossos representantes (note: dos evangélicos, reafirmando a prática política coorporativista que ele, em outro ponto, condenava).

Para completar o raciocínio, todos que usaram a palavra reafirmaram a necessidade de os pastores pedirem votos para os candidatos crentes, principalmente o tal publicitário. A mensagem para mim era clara: Estamos perdendo tempo. Nosso povo está se politizando e a gente está perdendo terreno. Vamos manobrá-los agora para que cumpram nossos objetivos políticos.

Fiquei enojado. E cresceu em mim a convicção e certeza de que em algum momento, em algum tempo, meu envolvimento político vai passar do que escrevo para a prática. E prometo exercer esse papel de uma maneira diferente dessa que condeno. Um dia, talvez...

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