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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Se não tivesse forte esperança utópica, ontem minha fé revolucionária teria sofrido um revés.
O diálogo abaixo ocorreu em uma repartição pública de Natal. Três pessoas estavam envolvidas, cujas identidades vou preservar, utilizando pseudônimos: Maria; sua chefe imediata, Conceição; e a jovem secretária de um outro chefe, Cláudia.
Antes de contar o fato, devo esclarecer sobre alguns personagens citados na história. Emanuel Bezerra foi um líder estudantil morto nos porões da ditadura militar. Djalma Maranhão era o prefeito de Natal em 1964. Na sua administração, Paulo Freire começou a pôr em prática a pedagogia do oprimido no projeto “De pé no chão também se aprende a ler”. Foi cassado e morreu no exílio.
Vamos ao (incrível) diálogo. Ele gira em torno de um retrato de Emanuel Bezerra.
Maria: Ah, deixa eu olhar. Quero ver se eu não conhecia ele...
Cláudia: Quem é ele?
Conceição: Foi um estudante que morreu no tempo da Revolução.
Cláudia: Revolução? Que Revolução?
Maria: Revolução não: golpe militar. O golpe de 64 (disse, voltando-se para a jovem).
Cláudia: Ah, eu nem era nascida ...
Maria: Mas você nunca viu nada sobre o golpe? Quando derrubaram Jango, em 31 de março? Todo ano se comemorava essa data: você não estudou isso, não?
Cláudia: Não...
Maria: Derrubaram Jango, prenderam Djalma Maranhão... Você sabe quem era Djalma Maranhão?
Cláudia: Tem uma escola com o nome dele ...
Maria: Que curso você faz?
Cláudia: Economia.
Maria: Você deve ter estudado em história ... Você não estudou história no colégio?
Cláudia: Não me lembro de ter estudado isso não.

Nesse momento, Conceição, envergonhada, deixa a sala.

Maria: VOCÊ DEVE ESTAR BRINCANDO COMIGO!

E para surpresa e tristeza de Maria, a resposta foi um sonoro: “Não!”

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